segunda-feira, 6 de junho de 2011

Eu não sei o que pensar do ser humano, eu não seio o que pensar das minhas dúvidas, das minhas tristezas, dos meus problemas, eu não sei o que pensar de mim, do que realmente quero. Eu não sei o que significa o que todos me dizem, eu não faço idéia do significado dos meus sentimentos, eu não sei o que é tristeza, ou amor, ou medo, eu não sei o significado da cidade ou da sociedade, eu não sei por que existe o caos, eu não o que é o meu corpo ou minha mente, o que eu bebo ou o que eu fumo, eu não sei o que é sentir dor, ou desejar a dor, eu não sei o que é química, física ou literatura, eu não sei o que é religião ou crença. Eu não sei por que eu choro, por que as pessoas acham que têm razão, eu não sei o que é razão, ou ego, eu não faço idéia do que eu estou fazendo aqui.
Eu não sei o que é o mundo, eu não sei quem sou, mas sei que tudo se reduz à palavras e eu não sei o que é isso.

sábado, 23 de abril de 2011

sábado, 9 de abril de 2011

O Operário em construção

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.


Vinicius de Moraes

quarta-feira, 23 de março de 2011

Não existem fotografias entre nós,

existem memórias congeladas,

existem memórias congeladas,

não existem fotografias entre nós,

não existem fotografias.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A escola não faz sentido

Com a promulgação dos direitos humanos a sociedade deve ser provida de educação, saúde e igualdade. Embora não haja uma reflexão plena sobre isso, pois a distribuição de renda e os investimentos feitos nos setores públicos são péssimo.
A base de todo o desenvolvimento interno de um país é a educação, pois ela formará cidadãos racionais quanto à sua sociedade. Mas o ministério da educação não elabora projetos que beneficiem e valorizem os alunos, nem mesmo professores, simplesmente impõe sistemas que falham ao longo do tempo e pouco ajudam. Mas por que escolas privadas formam estudantes tão bem qualificados?
Isso se deve ao fato de que essas escolas são empresas que visam o capital, na formação básica do direito de cidadão, onde as escolas públicas deveriam executar esse fator primordial e não executam, por que não gera lucro.
Enquanto isso, alunos da rede estadual de educação perdem tempo na sala de aula, pois a escola não tem planejamento, tão pouco uma direção básica que se preocupe com as relações educacionais de cada aluno.
A escola é tudo, menos um local de aprendizagem. Isso é indigno, suprimir conhecimento é calar a voz do povo, tornar as coisas fáceis não é o melhor caminho. Ilusão é acreditar que isso mude no sistema onde vivemos, pois a sociedade se acostumará a cada novo projeto de "desvio" da educação, como muito tem feito, com falsas promessas e planejamentos. A aprovação contínua, evasão, rompimento ético e a base de tudo a desigualdade social, fazem com que os componentes que vivem sob esse sistema fiquem desmotivados e permaneçam cegos.
é uma vergonha fazer parte dessa metodologia, pois literalmente a escola não faz sentido não ensina o jovem, simplesmente mostra aquilo que convém. Portanto ela é uma instituição falida que deve ser extinguida.

domingo, 14 de novembro de 2010

Lamento

Lamento querer-te com tamanha intensidade que nem os céus corrigem este erro amável.
Lamento envolver-te com noites escuras e olhares indesejáveis, totalmente desejáveis.
Lamento me entregar em seus braços quando não mais queria querer.

Sem mais, lamento viver, pois sem fugir de qualquer forma isso não muda, e mudará lamentavelmente na mudança de qualquer olhar e com a angústia de qualquer toque, que ao fragmentar-se voltará para o meu lamento de um céu ao desabrochar em qualquer noite que esteja você.